As delícias da Juju: fama muito além da comunidade Água Branca

Reportagem Maria Lígia Pagenotto
Fotos Marcia Minillo

Derli, Jamilli, Enrique, Jenyfer, Ana Carolina, Leidinalva e Marli

Difícil saber com precisão a origem do baião de dois. Numa pesquisa rápida na internet, há quem diga que o prato tem influência árabe – no lugar do feijão- verde, iria a lentilha. Outros especialistas dizem que o surgimento do baião, como o conhecemos, estaria relacionado ao Nordeste do Brasil, mais especificamente à região do sertão. A receita teria nascido da escassez de recursos – seria a comida do sertanejo que não sabe quando vai comer de novo, por isso é tão substancioso.
O fato é que o baião de dois está em toda parte do Brasil – passando por todas as regiões, no interior, capitais e interior do país. Tão famosa é a iguaria que Luiz Gonzaga, com seu acordeão, eternizou o prato uma música: “Ai, ai ai, ai baião que bom tu sois/ se o baião é bom sozinho / que dirá baião de dois”, diz o refrão.
Em São Paulo, com sua grande população nordestina, são muitos os lugares que oferecem a receita. E, entre tantos, alguns chamam a atenção – é o caso do baião do restaurante da Juju.
Ainda pouco conhecido, meio escondido entre as casas da comunidade Água Branca, próxima à Barra Funda, zona oeste da cidade, o baião de dois feito na cozinha comandada pelas irmãs Derli Amarante e Marli Amarante, tem tudo para se tornar famoso. )

Derli e sua fiel clientela

Muito bem servido, custa 23 reais a porção pequena (mas que dá para duas pessoas com apetite moderado) e leva todos os ingredientes que tornam um baião saboroso: feijão fradinho, manteiga, cebola, arroz, carne de sol, mandioca, queijo coalho e muito tempero, o que confere ao baião um aroma todo especial, bem típico do prato oferecido no nordeste.
E, que ninguém se engane: mesmo com tanta habilidade para o preparo do prato, as irmãs Amarante de nordestinas não têm nada. Nascidas em Santa Catarina, entraram no ramo da gastronomia quase por acaso. “Eu trabalhava numa concessionária de carro, fiquei desempregada e resolvi abrir um comércio”, conta Derli. No início, o restaurante, que hoje ocupa um espaço com várias mesas, era só uma portinha. E ela vendia pão e massa caseira. O sucesso foi tanto que foi preciso ampliar e diversificar.
Passaram a oferecer marmitas e a boa fama do restaurante se espalhou. Marli, que nunca havia pegado firme na cozinha, abraçou a atividade com muita competência. Ao seu lado, trabalham a filha, Jenyfer, e a sobrinha, filha de Derli, Jamilli. Ainda na cozinha, Leidinalva e Ana Carolina se desdobram ao lado da família Amarante para dar conta de tantos pedidos – elas auxiliam na elaboração dos pratos, sob o comando de Derli e Marli.
Vale ressaltar que o nome Juju é uma homenagem à mãe das duas, falecida um pouco antes da abertura do restaurante, há dois anos. A história de Juju, de Derli e de Marli, aliás, é uma história de muita luta, e se confunde com a de outras tantas brasileiras de fibra, mulheres empreendedoras, líderes quase que por vocação, independentes, batalhadoras. A trajetória das irmãs, para chegar onde estão, se encaixa bem nesse perfil e valeria um texto à parte, tamanha sua riqueza de detalhes.
Junto com elas, no restaurante, ainda estão Enrique e Edivânio, que entregam marmitas – o primeiro serviço oferecido no restaurante, desde quando ainda era apenas uma “portinha” – e colaboram em outros afazeres.
Mas, justiça seja feita: embora o baião de dois tenha se destacado pela fartura e sabor, a feijoada servida ali – também a 23 reais a porção pequena – não fica atrás em termos de sucesso. Oferecidos na quarta e sábado (a feijoada) e na sexta e sábado (o baião), os dois pratos têm chamado cada vez mais atenção de moradores do entorno da comunidade e de pessoas que trabalham em escritórios e empresas da região.

(clique nas fotos para ampliar)
Certamente por seu sabor e qualidade dos ingredientes. Mas também pela simpatia, carisma e alegria de Marli e Derli. Mesmo com muito trabalho, elas sempre têm um sorriso no rosto e recebem os clientes com muita atenção e um dedinho de prosa, quando possível. Alguns, da comunidade e os de fora, já habituais, são tratados pelo nome, com carinho. Isso alimenta a fama do lugar, que tem se alastrado rapidamente para fora dos limites da Água Branca.
Nos outros dias da semana, o cardápio segue o padrão da maioria dos restaurantes da cidade, com algumas variações: segunda-feira tem virado à paulista; picadinho e bife a rolê na terça; frango ao molho na quarta e feijoada também, claro; na quinta, macarronada; na sexta, baião de dois, rabada e peixe frito; no sábado, além do baião e da feijoada são servidos também cupim ao molho madeira e salmão ao molho de camarão; por fim, no domingo, coxa, sobrecoxa, lasanha e macarronada com bife ou frango. Fora isso tudo, Marli e Derli continuam firme no serviço de marmitex que deu origem ao restaurante. Em busca de mais espaço, alugaram um comércio ao lado. É desse ponto que saem as marmitas que a dupla oferece para pessoas físicas e para empresas (o forte delas, vale ressaltar). Composta de arroz, feijão, farofa e/ou bife, bisteca, calabresa, elas preparam todas as manhãs cerca de 200 marmitas. “Nossa meta é chegar a 600”, diz Derli.
No restaurante, entre o que é servido nas mesas e o que é entregue, elas contabilizam cerca de 60 refeições por dia. Aos sábados, o movimento aumenta um pouco. “São pelo menos 15 horas por dia de trabalho”, afirma Marli.
Mas, tanto para ela como para a irmã, essa é a vida com que sonharam. “Estamos felizes aqui. Trabalhamos muito, mas o negócio é nosso, damos emprego para outras pessoas, estamos crescendo. E a comunidade e o pessoal de fora cada vez mais têm prestigiado nosso restaurante.”
Para quem quiser saber mais a respeito e acompanhar o cardápio, o Dona Juju Pães e Marmitex tem página no Facebook: basta procurar pelo nome.

As irmãs Amarante na frente do restaurante

Serviço: Dona Juju Pães e Marmitex – Rua Capitão Francisco Teixeira Nogueira, 23 – Água Branca – Barra Funda – Tel. (11) 3611-0460.
Aberto de segunda a domingo, das 11 às 17 horas.

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