A vida depois dos livros

Reportagem Maria Lígia Pagenotto
Fotos Marcia Minillo

“Os livros me fizeram melhorar muito, são uma terapia pra mim”

“Ah, poxa, falar o que os livros fizeram por mim, nossa, é difícil. Fizeram tanta coisa. Eu aprendi e aprendo muito lendo. Mas tem mais, foi lendo que me livrei do alcoolismo. Quando eu comecei com os livros, tinha muito problema com o álcool. E, vendendo livro aqui faço muitos amigos, comecei a namorar, é tanta coisa que nem sei dizer direito”, conta o livreiro Marcelo Souza.
Todo dia, com chuva, frio ou com sol, ele pega sua bicicleta com um baú cheio de livros e pedala até o Viaduto Paraíso.
Chega cedo. Por volta das 7h30, ele estende um pano encostado à mureta que separa a calçada da rua para acomodar os livros e protegê-los um pouco da poeira.
Fica até as 18 horas, de segunda a sexta. O sábado ele tira para buscar doações. Vai com um carrinho de mão ou de feira, puxando os livros pelas ruas.
Se o dia está instável ou chuvoso, em vez de esticar os livros no viaduto, ele se abriga na marquise do Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro. A rotina é a mesma há seis anos.
Antes de ser livreiro de rua, Marcelo fazia um trabalho pesado, como ele mesmo diz. “Trabalhava com marreta na construção, carregava caminhão na roça já fiz de tudo um pouco. Já fiz até serviço pesado em circo, parque de diversão, catei sucata.”
Foi, aliás, mexendo com sucata e reciclando lixo que ele virou livreiro.

Leitores fiéis sempre em busca de novidades

“Eu pegava coisas pra reciclar nos Jardins, Vila Mariana, Chácara Klabin. Às vezes encontrava uns livros e levava sempre pra um cara que tinha um sebo na Av. Lins de Vasconcelos, perto do metrô Vila Mariana. Ele era generoso, pagava bem. Até que um dia eu achei uns 40 livros numa caçamba e, quando fui levar pra ele, o sebo tinha fechado. Voltei pra casa com os livros e fiquei pensando no que fazer. Resolvi colocar no viaduto pra vender. Não tinha muita intenção de continuar nessa vida naquela época, mas aí os livros chamaram atenção e o pessoal que passava começou a trazer livro pra mim, aí fui ficando, pegando gosto.”
Marcelo nunca tinha trabalhado com vendas antes dessa experiência. No começo, conta, alternava a venda na rua com o trabalho na roça, na região de Conchal, cidade onde foi criado.
Ia pro interior, ficava um pouco por lá, voltava pra São Paulo, vendia livros, ia de novo pra roça. Até que um dia resolveu ficar mais tempo em São Paulo e o “comércio” deslanchou.
Nos dias que antecedem o início do mês, as vendas caem um pouco, diz. “São os dias antes de cair o salário. Mas depois até que as vendas vão bem. Tenho conseguido me manter com esse trabalho”, afirma. Os livros são vendidos pelo preço de 1 real até 10 reais.
Seus fregueses são as pessoas que passam pelo viaduto. Alguns esparsos, outros fiéis, como os funcionários do Centro Cultural São Paulo e de locais próximos, como o Metrô, de hospitais, escritórios e comércio da região e muitos alunos das faculdade do entorno.

(clique nas fotos para ampliar)
“Muita gente me traz livro também. Livros bons. Tem um advogado aqui perto, dono de um escritório e síndico daquele condomínio ali (aponta), que sempre me traz muita coisa. Doa livros que ele escreve sobre direito, esses saem bastante. Saem muito também livros de escola, romance, livro de pensadores, livros pra faculdade, técnicos e acadêmicos em geral.”

“1984”, o livro que o salvou

O livreiro disse que sempre gostou de ler, mas não tinha muito acesso a livros na roça. Quando começou na reciclagem, pegava muitas revistas, especialmente as de ciência, como Superinteressante e Galileu Galilei.
“Quando encontrava essas, ficava contente. Parava numa sombra e lia. Mas a leitura que me marcou mesmo, que me fez mudar de vida foi o livro “1984”, do George Orwell. Tem uma parte lá que mexeu comigo. É quando ele fala que as pessoas trabalhavam o dia inteirinho e aí chegavam em casa, pegavam gim e rum e bebiam pra aliviar o cansaço do trabalho. Era o sistema que fazia isso, e eles não percebiam, iam entrando nisso sem se dar conta. Era o que estava acontecendo comigo, fiquei ligado no jeito que eu bebia, por que eu bebia. E aí assim comecei a tirar da mente a bebida. Parei de beber assim. Os livros me fizeram melhorar muito, são uma terapia pra mim.”
Ele diz que tem outros dois que também são importantes na sua vida, o “Admirável Mundo Novo”, do Aldous Huxley, e o  “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury.
“No Fahrenheit, as pessoas vivem numa sociedade que queima livros, onde os livros são proibidos. Já pensou nisso?”

(clique nas fotos para ampliar)
Quando chega o final do dia, Marcelo sempre deixa uns livros soltos no viaduto, para quem quiser pegar. “Junto um tanto de livro, aí gosto de largar uns ao ar livre, é um jeito de fazer as pessoas lerem mais acho”.
Aos 42 anos, solteiro e sem filhos, o livreiro, que fez ensino básico, conta que em casa, quando criança, lia “Histórias Bíblicas”, que a mãe tinha comprado de uma pessoa na rua. Com o tempo, o livro se perdeu, mas, por uma coincidência dessas da vida, um dia ganhou um igualzinho. Claro que logo mandou pra mãe, que vive no interior.
Mas o livreiro não chama atenção no viaduto só pelos livros. Ele sempre abre uma placa, com duas laterais, e nela coloca frases que fazem muita gente parar pra ler, pensar, fotografar e puxar conversa.
“Pego essas frase na internet, muitos clientes me mandam também, ou pego nos livros. Sempre que encontro a autoria eu coloco. Isso movimenta aqui, as pessoas gostam, é bacana. Foi um cliente que me deu essa dica, porque eu escrevia na lateral da bicicleta. Um dia ele trouxe esse cartaz e as canetas, álcool pra limpar e não parei mais.”

“Eduardo e Mônica”

Marcelo mora na região do Paraíso, perto do “trabalho”. Diz que não se imagina fechado num escritório, numa salinha. É feliz desse jeito.
“Tem gente que fala pra eu abrir um sebo, mas meu negócio é a rua, aqui eu troco muitas experiências com quem para pra conversar, trocamos ideias sobre livros, sobre a vida. Arrumei até uma namorada aqui. Agora a gente tá meio estremecido, mas foi por causa dos livros que eu conheci a Penélope. Ela é pedagoga, às vezes fala umas palavras meio difíceis, mas tudo bem, assim vou aprendendo”, conta rindo.

Romances, filosóficos, técnicos, acadêmicos etc

O namoro, diz Marcelo, é meio na linha da letra da música “Eduardo e Mônica”, do Renato Russo. “Sabe a história, né? Então, a gente é meio assim. Mas olha, aqui eu sou muito feliz, e com os livros eu melhorei muito, acho que ler é uma terapia, faz muito bem. Você sabe, livro é assim, você se pega lendo uma coisa e aí fala ‘caramba, nunca tinha pensado nisso, mas é bem assim’. Então aprendo muito mesmo.”
Diz que nunca teve problema com fiscais nem sofreu algum tipo de violência por trabalhar ao ar livre. “Claro que às vezes aparece gente chata por aqui, mas isso tem em qualquer lugar, né?”
Quando fica no Centro Cultural, troca muita ideia também com as pessoas em situação de rua que por lá se abrigam. Em um dos dois dias em que conversamos, uma manhã chuvosa, ele estava lá, onde ficou até o sol sair, e dividiu sua marmita – feita por Penélope, a namorada – com um dos homens que dormia embaixo da marquise.
Numa outra manhã, essa ensolarada, Marcelo, no viaduto, escreveu num lado da placa: “Em um lugar onde não há atividades culturais, a violência vira espetáculo”.
Entre um freguês e outro, pegou um livro que diz gostar muito para fazer uma foto: “Genealogia da Moral”, do filósofo Friedrich Nietzsche. “Esse cara é demais também, já leu?”

Serviço: Marcelo fica no viaduto do Paraíso, na rua do Paraíso;  facebook:  https://www.facebook.com/profile.php?id=100012124055680 ; e no Instagram como @livreiro_do_paraiso

 

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