Fazenda Biacica se prepara para integrar o Parque Várzea do Tietê

Reportagem Maria Lígia Pagenotto
Fotos Marcia Minillo

IMG_5931
Jerivás e árvores centenárias compõem a flora do futuro parque

Tucanos, quatis, aves que poucos conhecem e até macacos de pequeno porte habitam uma área ainda pouco explorada pelos paulistanos. A vegetação é fechada, e traz espécies diversas.
Mas, para além da natureza, o local surpreende também pela história. No extremo lado leste da cidade, na várzea do rio Tietê, está a Fazenda Biacica, uma antiga propriedade que data da segunda metade do século XVII.
Localizada no Jardim Helena, na região do Itaim Paulista, a fazenda, segundo registros históricos, pertenceu à Domingos de Góes. Ele, que seria um explorador, teria recebido esse lote de terra da coroa portuguesa.
Situado próximo ao riacho então chamado de Imbiacica (de onde teria surgido o nome da fazenda), hoje conhecido como Lajeado, o lote teria sido concedido à Domingos de Góes em 1611.
Sua posse foi rápida, pois documentos atestam a posse definitiva do terreno aos padres da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, em 1621. Nessa época, o rio Tietê levava o nome de rio Anhembi.

Entrada principal da sede da fazenda com mural de azulejos
Entrada principal da casa sede com mural de azulejos

A sede da fazenda ainda está lá. A capela da casa foi erguida em 1682, quando Dom José de Barros Alarcão, bispo de São Paulo, nomeou o padre Pedro Godoy como o primeiro vigário do local, de acordo com informações históricas da região.
Nesse período, terminava a tão desumana “caça ao índio” e começava a caça ao ouro, descoberto inicialmente nas Minas de Taubaté, primeiro nome de Minas Gerais.
Documentos mostram que o caminho para as minas passava pela Biacica em direção ao vale do Paraíba, na altura da atual cidade de Cruzeiro.
O casarão da fazenda foi construído com base na arquitetura portuguesa. Para chegar até ele, o visitante passa por uma alameda de imponentes palmeiras, os jerivás, e outras belas árvores centenárias. No alto da porta principal da sede, com 3 metros de altura em madeira de lei, é possível ver a data de 1682 gravada.

Construção em processo de restauro, para utilização por usuários do parque
Casa anexa à sede em processo de restauro

No século passado, quando pertencia à família Fontoura, o imóvel sofreu modificações. Ganhou novos cômodos ao redor e uma varanda na frente, onde ficam dois painéis com desenhos em azulejos portugueses. Neles, estão representadas a chegada dos portugueses em São Paulo, em 1532, e a catequização dos índios pelos jesuítas em 1554. A obra é datada do ano de 1952. O conjunto foi tombado pelo Patrimônio Histórico (IPHAN) em 1994, medida que havia sido sugerida pelo escritor Mário de Andrade já em 1937, quando a visitou como técnico do IPHAN. As informações são do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE).
Atualmente, o espaço da Fazenda Biacica, aos cuidados desse órgão, responsável pela gestão dos recursos hídricos do estado de São Paulo, está em reforma. O projeto em andamento prevê a restauração do antigo casarão.
O local será transformado em breve, segundo o DAEE, em Núcleo de Lazer, Cultura e Esporte do Jardim Itaim Biacica.
No site do DAEE consta que o local receberá investimentos de R$ 8,7 milhões para implantação do núcleo. Quando pronto, o público contará com uma série de equipamentos. Entre esses, um campo de futebol society, duas quadras poliesportivas, sala para educação ambiental, academia e salas para atividades específicas para o público idoso, biblioteca, oficina de leitura e prosa, playground, 16 churrasqueiras, lanchonete, posto da guarda civil municipal, vestiários, trilhas, estacionamentos, além de instalações administrativas e de manutenção. As obras começaram em abril do ano passado e a expectativa é que até março estejam concluídas. O centro de educação ambiental, uma parte nobre do complexo, será instalado na antiga sede da fazenda.

Um dos quiosques com churrasqueiras e banheiros

O local foi escolhido por estar próximo à Estação Itaim Paulista da Linha 12 da CPTM (Safira) e ao Viaduto Carlito Maia, permitindo boa acessibilidade. Vale lembrar que, uma vez concluído, esse será o segundo núcleo esportivo e cultural da primeira etapa do Parque Várzeas do Tietê, que será implantada em 25 quilômetros de extensão do rio Tietê – da barragem da Penha até a divisa com o município de Itaquaquecetuba. A ideia é ligar o Parque Ecológico do Tietê, na zona leste, ao Parque Nascentes do Tietê, em Salesópolis. O núcleo da Vila Jacuí, o primeiro, foi inaugurado em junho de 2010.
Segundo o órgão gestor, o objetivo desses núcleos é contribuir para minimizar os efeitos da ocupação desordenada e dos consequentes problemas ambientais, urbanísticos e sociais, além do controle de enchentes nas zonas urbanas.
Nas proximidades da Fazenda Biacica, está o bairro conhecido como Jardim Pantanal, conhecido no noticiário por sucessivas inundações.

O maior parque linear do mundo

Uma vez pronto em toda sua extensão, o Parque Várzeas do Tietê será o maior parque linear do mundo, com 107 quilômetros quadrados de área, de acordo com o DAEE. O projeto prevê a construção de 33 centros de lazer, esportes, cultura, recreação e educação ambiental, que beneficiarão diretamente mais 3 milhões de moradores da zona leste da capital e dos municípios de Guarulhos, Itaquaquecetuba, Poá, Suzano, Mogi das Cruzes, Biritiba Mirim e Salesópolis.

(clique nas fotos para ampliar)
A reportagem do Sampa Inesgotável visitou o parque pouco antes do final de 2016. Fomos guiadas por Osvaldo Ribeiro, estudante de direito, morador da região e ativista de ações sociais no bairro. Mas o local não está aberto a visitações ainda. De longe, no entanto, é possível se surpreender com a imensa mancha verde e árvores gigantescas.
A iniciativa é muito bem-vinda, pois a área sofre com falta de lazer – além de enfrentar uma série de problemas ambientais – , situando-se a mais de 30 quilômetros de distância do centro de São Paulo.
Agora é aguardar sua finalização, para que possa ser usufruído por paulistanos e visitantes.
veja mais fotos aqui

Serviço: Núcleo de Lazer, Cultura e Esporte do Jardim Itaim Biacica
Estrada da Biacica, 756 – Itaim Paulista – Distrito Jardim Helena ( o parque ainda não está aberto ao publico)

 

Compartilhe esta matéria:

9 thoughts on “Fazenda Biacica se prepara para integrar o Parque Várzea do Tietê

  1. Boa tarde, parabéns pela matéria.
    Recentemente lançamos um livro sobre patrimônios culturais da zona leste com distribuição gratuita, incluindo a Capela Biacica. Caso tenha interesse segue link sobre: http://tribufu-mcp.blogspot.com.br/p/livro-recados-aos-nossos-ancestrais.html
    Segue dois links como sugestões de pautas de ações muito interessantes que ocorrem na zona leste de São Paulo relacionada a patrimônio cultural, memória e cultura Afro-brasileira:
    http://largodorosario.blogspot.com.br/p/his.html
    https://www.facebook.com/UrurayPatrimonio/

    1. Sim, o parque já está aberto à visitação. Para maiores informações entre em contato no tel: 2025-2041

  2. Estive no parque biacica essa semana ,e essas casas no meio do parque me chamaram atenção, visto a imponência da construção. Entrei na net pra saber se achava alguma informação sobre elas. E achei, amei a matéria. Não tinha ideia qual antiga elas eram.

  3. Quero aqui deixar meu comentário indignado com a situação no qual se encontra agora após a construção deste parque Biacica. Por erro de engenharia, as ruas próximas como Simão Rodrigues Moreira e Tite de Lemos estão alagadas por fazer uma rede de esgoto ligada a rede do córrego onde o esgoto retorna pela tubulação mal feita.
    O correto seria fazer um desvio das tubulações destas ruas para a galeria da Biacica onde em 1996 foi construída uma galeria subterrânea pela construtora “CBPO” onde comportaria toda esta água.
    Cadê as autoridades que não fazem nada!!!

    1. Olá Evanildo, boa noite. Estivemos lá recentemente para ver como ficou o parque depois de pronto e constatamos essa situação. Presenciamos a rua lateral a entrada do parque completamente alagada. Vamos fazer uma nova reportagem sobre parques onde abordaremos essa questão da falta de planejamento, alagamentos, ocupações de áreas de preservação, etc. Obrigado por seu contato

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *