Por dentro do Castelinho da rua Apa: o que vem pela frente?

Reportagem Brunella Nunes
Fotos Marcia Minillo

Construído no início do século XX, o prédio ficou abandonado por mais de quatro décadas

Por muitos anos, um dos endereços mais icônicos da cidade permaneceu com as portas fechadas, carregando a sombra de seu passado: um assassinato que até hoje se mantém sem explicação concreta. E o tempo foi cruel com o chamado Castelinho da rua Apa, fadado ao esquecimento, às ruínas e ao descaso. “Eu olhava pra ele e via um prédio que fugia de todas as arquiteturas que existiam aqui. Era único, mas estava se decompondo, abandonado. Ia virar uma montanha de entulho e eu não gostaria que esse imóvel, com essa linda estrutura na av. São João, centro da cidade, virasse isso e perdesse toda a história do prédio”, contou Maria Eulina Hilsenbeck, idealizadora da ONG Clube de Mães do Brasil, focada em capacitar ex-moradores de rua, na reinserção social, entre outras tantas funções.

Maria Eulina não desistiu até colocar seu sonho de pé

Talvez essa história, distante e ao mesmo tempo tão próxima dos contos de fadas, tenha uma ligação forte um com o outro, um tipo de conexão que pode ser atribuída ao destino. Assim como a obra que tanto admira, Maria também passou por maus bocados em sua história pessoal. Há mais de 20 anos, chegou a essa pauliceia desvairada, mas morava na rua, se acolhendo neste endereço em algumas ocasiões, e tem em sua trajetória alguns traços em comum com o que hoje pode chamar de seu. Ou quase isso. “Não queria que funcionasse um projeto meu, mas uma coisa que fosse para a sociedade. Fiquei muito focada nisso. E como ele não estava à venda e eu não tinha dinheiro para comprar, fundei uma ONG para começar a pleitear a concessão do prédio, em 1997”, explicou.

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Foram 42 anos de Castelinho abandonado e 19 anos de luta para manter seu sonho de pé. Ao longo do tempo, muitos prefeitos passaram pela cidade, mas só no final do governo de Marta Suplicy é que ele foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental – CONPRESP, no ano de 2004. “Então aí já foi um desafio, a gente batalhando. Depois veio a luta para conseguir revitalizar, encontrar parceiros. Conseguimos através do Fundo de Interesses Difusos – FID, da Secretaria de Justiça, ao qual nós somos muito gratos, porque foi a única porta que se abriu para nós. E, mesmo que fosse o trabalho deles, nós passamos por muitos governos batendo na porta e ninguém fez. Então eles tiveram um olhar social. Devo isso muito à dra. Heloísa Arruda, porque foi ela que começou a enxergar esse potencial, e ao dr. Humberto, promotor público que me ajudou muito”, disse Maria Eulina, fazendo questão de citar os nomes dos que lhe estenderam a mão.

A escada nova e moderna e a recuperação do piso antigo

Entre trancos e barrancos dos processos burocráticos e até mesmo da falta de vontade do poder público em fazer alguma coisa, ela, enfim, conseguiu reerguer o seu castelo, e deixará um legado importante para a cidade. Essa é a reconstrução de uma história, um recomeço. “Hoje, depois de passar por todo o processo cirúrgico, é um prédio perfeito, maravilhoso, mas o que fez a gente receber a história do tombamento é a história que o Castelinho tem, que não é a do crime, mas sim uma história socioambiental”.
As obras de restauração, com investimento de R$ 2,9 milhões, se iniciaram em 2016 e estão em fase de conclusão ainda em 2017, já que segundo Maria, faltam alguns pequenos detalhes. O edifício dará continuidade às realizações promovidas pelo Clube de Mães, fundado em 1993. Será palco de diversas atividades, oficinas, eventos e palestras. Uma cozinha será montada para dar cursos de reaproveitamento de alimentos às crianças de escolas públicas, por exemplo. É uma transformação que vai de dentro pra fora, levando o Castelinho a um outro patamar que o afasta de seu passado ingrato, o promovendo a agente social e cultural. “Trabalhamos com pessoas em vulnerabilidade social, com o morador de rua, o dependente químico, a mãe abandonada, a criança jogada. É essa história que foi forte para o Castelinho, e não a do crime ou da Maria Eulina. A veia, a sensibilidade foi por aí, é pela vida restaurada que passou por aqui. É essa história que é forte, que é importante de ser mostrada”, concluiu.

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Por enquanto, não há previsão de abertura oficial do edifício para o público, mas Maria Eulina garante que não vai demorar muito tempo. No dia 3 de maio de 2017, ela recebeu oficialmente o prédio após o restauro e então começará a planejar a programação. A primeira ação para celebrar a vida nova do Castelinho será de atendimento às pessoas que moram na rua, incluindo serviços de saúde, emissão de carteira de identidade e atividades mais lúdicas, como contação de histórias. Neste castelo, as portas se abrem não para formar reis e rainhas, mas protagonistas de um futuro melhor.

O pequeno  jardim com muitas flores

O que ficou para trás

O imóvel construído no início do século XX, com ares de Bélle Époque, foi ofuscado por um trágico acontecimento. No ano de 1937, houve o assassinato da família que morava no local, a socialite viúva Maria Cândida Guimarães e seus filhos, Álvaro e Armando Guimarães Reis. Os três foram encontrados mortos ao lado de uma pistola. Entre muitas teorias, supõe-se que houve uma discussão financeira entre os irmãos, que discordavam sobre os investimentos a serem feitos. Dizem que Álvaro disparou contra Armando, mas a mãe entrou na frente. Outro tiro foi dado e então o assassino teria se suicidado na sequência.
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Em parceria de conteúdo do Sampa Inesgotável com o São Paulo São

 

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