Olhares das mulheres da cracolândia

Fotos Adri Felden/Argosfoto

Quem de fato se importa com as histórias das pessoas que frequentam a Cracolândia? O que está por trás do estigma de pertencer, de certa forma, àquele lugar? A fotógrafa Adri Felden mostrou que se importa. Ela aceitou o desafio de fotografar mulheres usuárias de drogas, dentro de um projeto proposto pelo programa De Braços Abertos – uma iniciativa de redução de danos, com atividades até o ano passado na região.
“Foi um privilégio fotografar essas mulheres, captar seus olhares – tão significativos, tão fortes”, diz a fotógrafa. As mulheres fotografadas tinham entre 20 e 55 anos e o projeto foi pensado com o objetivo de melhorar a autoestima delas. “Elas se doaram, e eu pude captar o olhar delas, compactuando juntas aquele momento.”
Triste demais foi constatar que a maioria das mulheres tem histórico de violência doméstica, na infância e/ou adolescência. Várias tem histórico de agressão e espancamento por ex companheiros.


“Cada foto durou em média de 10 a 15 minutos, momentos muito intensos. Com cada uma rolou uma sintonia diferente, procurei deixá-las à vontade, o mais natural possível.”

“Devagar, elas foram surgindo, reunindo-se no espaço do programa De Braços Abertos. Algumas levaram batons, outras levaram brincos. Uma levou um óculos escuros, outra mais algum acessório, e assim começou uma produção básica para as fotos.”

“Uma ajudava a outra a passar batom, a se produzir. Algumas foram molhar os cabelos para ajeitar o arranjo com os turbantes, fornecidos pelo programa De Braços Abertos. A menina na foto com o cachorro disse que só faria a foto se o cachorro estivesse junto.”
(clique nas fotos para ampliar)
“Esse foi um projeto que mexeu muito com elas. Segundo as coordenadores, já haviam sido feitas tentativas de tirar as mulheres do fluxo ((local onde consomem drogas) para alguma atividade, mas elas se recusavam. Para as fotos, elas foram, aos poucos, se animando.”
Ao final do projeto, que foi exposto no Museu da Energia em dezembro passado, Adri levou para cada uma delas uma foto de presente. As imagens mostram como ela captou bem o brilho do olhar invisível dessas mulheres.
“A parte triste foi que nem todas puderam ver a exposição, porque não conseguiram sair do fluxo.”

Adri Felden é fotojornalista independente há 20 anos, sócia da Argosfoto, pós-graduada em Fotografia no SENAC e mestranda em História da Arte na UNIFESP. No final de 2016, o ensaio de retratos com as mulheres da Cracolândia rendeu a exposição “Olhares ” no Museu da Energia em São Paulo.

 

 

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