Pequena e ativa há mais de 100 anos

Reportagem Maria Lígia Pagenotto
Fotos Marcia Minillo

O filão italiano saindo do forno
Centenas de pães são assados diariamente no forno que existe desde a época da fundação da padaria

A pequena padaria na Rua Rui Barbosa, na Bela Vista, encanta, ao primeiro contato, pela diversidade de produtos. Um visitante mais atento logo verá que o lugar tem anos e anos de história. Degustando algumas das delícias à mostra no balcão perceberá que o capricho e a qualidade são outras das marcas registradas do estabelecimento.
E não há como não falar do atendimento. Sandra Franciulli, herdeira do negócio que já foi do avô e do pai, recebe a todos com um largo sorriso. Os funcionários não ficam atrás no quesito simpatia.
Por tudo isso, a Italianinha é, pode-se dizer, a padaria dos sonhos de muitos paulistanos. Está no mesmo lugar desde a inauguração, em 1896, antes do alargamento da rua Rui Barbosa. “Virou ‘Italianinha’ porque, com as mudanças na rua, o espaço encolheu”, conta Sandra, lembrando que a padaria teve outros donos no início e já foi bem maior. “Por ser pequena e vender produtos da Itália, meu avô deu esse nome carinhoso ao comércio, que antes se chamava Luccania, em referência à cidade de Lucca, na Toscana.” 

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Por sua importância histórica, a Italianinha recebeu, em agosto, um selo do Conpresp, órgão municipal de proteção ao patrimônio. Isso significa que o local tem “Valor Cultural e Histórico”, embora não seja salvaguardado pela prefeitura.
A família recebeu com alegria o reconhecimento – afinal, história é o que não falta na pequena padaria. O forno, onde cabem cerca de 300 filões, é o mesmo desde a fundação do empreendimento.
O processo de elaboração da massa é todo artesanal. “A fermentação do pão italiano original é natural e preservamos o processo aqui”, diz Sandra. Segundo ela, seu avô trouxe da Itália a “massa mãe”, e é ela que, até hoje, dá origem aos pães que saem das fornadas da Italianinha. Uma equipe deixa para a outra um pedaço da massa mãe, para que a tradição não se perca.
O carro-chefe dos pães, segundo os vendedores, é o de calabresa. Feito de acordo com a receita italiana, o pão leva recheio de provolone, calabresa e mozarela. Outro que sai muito é o pão de quatro queijos, tomate seco e berinjela.

O pão de calabreza com queijo é o carro-chefe
O pão de calabresa com queijo é o carro-chefe

Antônio José Ramos, padeiro há 33 anos, juntamente com outros três ajudantes – Avanízio, Jorge e Ronaldo –, é quem monta os pães.
E quem entra na padaria se surpreende: como um lugar fisicamente tão modesto é capaz de produzir tantas gostosuras? Os bastidores da Italianinha são tão pequenos quanto os espaços abertos ao público.
Sandra ri e, sempre calma e paciente, explica que algumas coisas são feitas fora. Muitos dos antepastos vendidos, diz, são preparados na casa de sua mãe, no Cambuci, por uma das suas irmãs, sua sobrinha, de 27 anos, e o marido da garota.
Mas outro tanto dos produtos é feito ali mesmo, e muitos na frente da clientela, num fogão encaixado no balcão.
Há uma série de itens industrializados, que também ocupam boa parte das prateleiras da Italianinha. A maioria procede da Itália, obviamente, mas há uma parte que vem da Espanha. Por ali é possível encontrar vários tipos de queijos, presuntos, copa. Também há muitos vinhos nacionais e importados e azeites.
Mas chamam atenção mesmo os antepastos artesanais, entre esses berinjelas com tomate seco, sardinha escabeche, cogumelo italiano, azeitonas picadas e temperadas, patês diversos, sardela e alicella. Outros destaques: bracciolas, polpetones recheados, molhos diversos, perna de cabrito, pimentões e alcachofras recheadas.

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E os doces? Marcando presença ali, e em várias versões, está o cannoli, de origem siciliana. A massa levinha, recheada com ricota e frutas, é a tradicional. Mas, para os mais ousados, a delícia também pode ser apreciada recheada com creme pistache e limão.
Junto com o sfogliatelle, também recheado de ricota, é a sobremesa que mais sai na Italianinha.
E é possível ainda levar para casa pastiera di grano (um clássico da cozinha napolitana, à base de ricota e trigo em grão), catanelle (massa recheada de pasta de nozes, amêndoas e avelã), torta de ricota, palha italiana, cartellate (um doce cuja massa é composta por tiras, enroladas em forma de flor) e amaretti (biscoitos feitos com amêndoas moídas, muito populares na Itália), entre tantos outros. Há ainda doces portugueses e vistosos quindins.
Penduradas acima do balcão estão as linguiças, outra especialidade da casa. Sandra afirma que o avô, da região de Salerno, e sua avó, ambos por parte de pai, foram os que passaram a tradição da culinária italiana para sua mãe, de origem espanhola.

O bom atendimento faz a clientela voltar sempre
O bom atendimento faz a clientela voltar sempre

“Minha avó materna tinha uma pensão, então também cozinhava muito. Aqui tudo é resultado dessa mistura, dessa história”, explica a proprietária.
A família não tem intenção de aumentar o negócio, nem de abrir outras lojas. A graça e o charme estão no espaço pequeno, mas muito funcional.
Sandra ressalta que desde criança tem sua vida ligada à padaria. “Meu pai acordava de madrugada para vir ‘alimentar ‘ a massa do pão, que ficava originalmente fora da geladeira, fermentando.”
Ela guarda na memória outras histórias da família, passadas de geração para geração. As entregas eram feitas nas casas em carroças. O preparo do pão e de outras comidas unia os imigrantes e, aos poucos, iam caindo no gosto dos moradores mais tradicionais da cidade.
Para quem se interessa, Sandra logo conta como começou essa saborosa história, que enche de sabor há anos a vida dos paulistanos. Vale conhecer.
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Serviço: Padaria Italianinha – Rua Rui Barbosa, 121 – Bela Vista – Tel.: (11) 3289-2838
Abre de terça a sábado das 7h às 20h; às segundas, das 14h às 20h e, aos domingos, das 7h às 15h.
http://www.padariaitalianinha.com.br
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