A coragem de ocupar e resistir em Itaquera

Reportagem Maria Lígia Pagenotto
Fotos Marcia Minillo

Grafite dos artistas Thassio, Casé, Vint3, Ghilherme Vitor, Ozi e Maumeks
Grafite dos artistas Thassio, Casé, Vint3, Ghilherme Vitor, Ozi e Maumeks feitos em pedaços de madeira

A vida cultural nas proximidades da COAHB 2, em Itaquera, zona leste de São Paulo, está mais intensa desde fevereiro. Foi nessa época do ano que um coletivo de ativistas em prol da cultura decidiu dar um novo sentido para um galpão abandonado. Localizado em frente ao conjunto habitacional conhecido como COAHB 2, o lugar estava fechado há cerca de 15 anos.
Já que o poder público não se mobilizava para ressignificar o espaço, como conta Thassio Bertani, grafiteiro, ele e sua mulher, Michele Cavalieri, resolveram tomar a iniciativa de ocupar a área, preenchendo o vazio com arte, música, ações educativas, grafite.
Assim nasceu a Okupação Cultural C.O.R.A.G.E.M., sigla que quer dizer coletivo, ocupação, revitalização, arte, grafite, educação e música.

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Thassio Bertani

Em frente à ocupação, pontua Thassio, antes dela existir como espaço cultural, havia um terreno também meio largado. A subprefeitura se encarregou de revitalizá-lo, transformando-o em uma praça com playground e pista de skate. Foi a deixa para que o galpão, onde tempos atrás funcionou um mercado, também ganhasse nova cara.
Mas como, oficialmente, nenhuma autoridade se movimentava nesse sentido, Michele e Thassio saíram na frente. “Chegou uma hora que resolvemos mesmo quebrar o cadeado da porta. Isso aqui estava largado há muito tempo, havia muito lixo e entulho”, diz Michele, que atua como ativista cultural na região há anos.

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Michele Cavalieri

Para a limpeza, o casal mobilizou os amigos do bairro. Com o empenho de todos, não demorou muito para o local ficar pronto para uso. Ao retirarem o lixo, uma surpresa. Thassio se deparou com várias tábuas de madeira, quase todas do mesmo tamanho. “Aquilo chamou minha atenção. Decidi guardar para fazer algo mais para frente. Inicialmente íamos jogar tudo no lixo, mas aí eu pensei em usar essa madeira como suporte para o grafite e fazer uma exposição, já que essa é uma arte forte aqui na região”, relembra.
Ele separou então esse material. Convidou 50 artistas para participar do projeto. “Fui falando com cada um, explicando qual a proposta. Todos aceitaram prontamente participar.”
A iniciativa deu um certo trabalho logístico para Thassio e Michele. Eles tiveram de levar os pedaços de madeira para a maioria dos artistas, e depois fazer a retirada da obra pronta. Cada um fez um tipo de intervenção no suporte, sempre utilizando técnicas do grafite.

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Depois de tudo recolhido, Michele e Thassio organizaram a exposição, intitulada de 1ª Mostra de Arte Urbana de Itaquera. A abertura foi em outubro, inaugurando oficialmente o espaço para uma série de mostras.

Fortalecendo as manifestações artísticas das quebradas

“Nossa proposta foi de trazer para o bairro uma exposição com obras de artistas que estão em atuação no cenário urbano da cidade, ampliando a cultura e a arte de rua. Com esta ação, queremos mostrar também a importância da reciclagem, e como a arte é capaz de transformar e renovar objetos que muitas vezes vão para o lixo”, disse Michele, responsável pela divulgação do evento nas redes sociais.
A iniciativa contou com alguns apoiadores. “Temos parceiros privados no setor das artes que dão força para o nosso trabalho, como uma galeria de arte de Moema e o comércio do entorno, que doou as tintas para a pintura do local”, explica Michele que, ao lado do marido fundou uma organização não governamental para tocar os projetos da Okupação.

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“A subprefeitura nos apoia de certa forma também, pois reconhece a nobreza da atitude da Okupação e o destino dado ao galpão abandonado”, afirma Michele.
Para preencher o espaço, o grupo conseguiu alguns móveis, como mesa, cadeiras e sofás. Também se organizou para criar, em uma oficina, mobiliário de material reciclado, como poltronas de pneus que seriam descartados.
Na inauguração da mostra, quem foi à Itaquera também pode ouvir o som do grupo Quebrada Instrumental. Muitos dos artistas compareceram para prestigiar o evento, entre esses Robson Casé, Guilherme Vitor, Ozi, Felipe Freire (Insônia), Oxil.
Entre a inauguração do espaço e a realização da mostra, outros eventos já aconteceram na Okupação C.O.R.A.G.E.M., como saraus e apresentações de música.

Apresentação da banda Quebrada Instrumental
Apresentação da banda Quebrada Instrumental

“A Okupação é uma forma de difundirmos a arte que acontece aqui na quebrada, que ainda é pouco conhecida”, explica Thassio. Ele diz que o espaço é democrático e permite intervenções diversas, como literatura, poesia, arte, música. Crianças e jovens são sempre bem-vindos e a ideia é que a Okupação proporcione também práticas educativas e vivências de promoção à saúde e ao bem-estar. Tudo oferecido gratuitamente.
“Queremos fortalecer cada vez mais nosso palco. Aqui é lugar para arte, graffiti, educação e música”, finaliza Michele.
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Serviço 
Okupação C.O.R.A.G.E.M. – Coletivo de Ocupação, Revitalização, Arte, Grafite, Educação e Música
Rua Vicente Avelar, 53 – Praça Brasil – Cohab II – Itaquera
A 10 minutos da estação de trem José Bonifácio. Estacionamento gratuito no local.
Horário de funcionamento de acordo com a programação.
Informações: Facebook: Okupação Cultural Coragem – E-mail: coragemcoletivo@yahoo.com.br

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One thought on “A coragem de ocupar e resistir em Itaquera

  1. Como as boas notícias e as iniciativas com esta, que ilumina quem está esquecido, nos dão esperança nesse momento tão difícil! Muito legal a matéria! Parabéns ao pessoal da Cohab 2!

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