Minha minifloresta

Texto e fotos Tiago Queiroz

Muda de jatobá
Muda de jatobá com sementes colhidas no Parque Trianon

Paulistano, cresci no meio dessa selva urbana repleta de prédios e carros. Tive a sorte de ter um avô médico e hortelão de mão cheia muito antes dessa palavra virar moda. Passei muitos finais de semana entre canteiros de alface, couve e agrião. O caramanchão de chuchu no alto do morro tinha um clima de mistério em seu interior para a molecada, mas nada era mais sedutor do que as “guerrinhas de laranja podre” ou de outro fruto da estação que nos servia de munição farta. Uma tarde inventamos de descer a estradinha de terra ladeira abaixo em velhas bicicletas sem freio. Que saudades desse tempo!
Conto essas lembranças para justificar meu apreço pelo verde. Adulto e jornalista, já com alguns bons anos na estrada, andando pra cima e pra baixo, de leste a oeste pelas marginais de São Paulo, percebi uma árvore forte, de crescimento sagaz e profícua em espalhar suas vagens repletas de sementes por todos os cantos.

bancada
Minifloresta na bancada da janela

Pensei com meus botões que essa sim deveria ser uma árvore a ser plantada, cultivada. Guerreira para vencer a dureza e aspereza do concreto.
Um dia entre uma pauta e outra pedi para o motorista parar o carro da reportagem. Mirei uma dessas árvores cujo nome e origem desconhecia. Ávido, rapidamente enchi os bolsos com suas sementes. Chegando no meu apartamento, iniciei aquilo que um dia carinhosamente batizei de “Minifloresta”.
Preparei caixas de leite vazias, com furos estratégicos para escoar a água que iriam germinar as sementes colhidas na beira do Tietê. Em poucas semanas, quase todas já haviam vingado nos berços improvisados. Depois de alguns meses com uma verdadeira mata no meio da sala, fui fazer uma caminhada na Serra do Japi, na cidade de Jundiaí. Um passeio muito interessante. Entre a vegetação de transição que mesclava cerrado e mata atlântica, saquei o celular e mostrei algumas imagens da minha “minifloresta” para o organizador do bate volta verde, o paisagista Oscar Bressane. “Rapaz, você encheu a sala de seu apartamento de leucenas!”, exclamou ele, para logo depois emendar. “São algumas das piores invasoras que existem no planeta”. Perplexo com a declaração comecei a estudar sobre elas, fui pesquisar teses e consultei outros biólogos e paisagistas.

Germinação de guapuruvu
Germinação de guapuruvu colhidos na beira do rio Pinheiros

Descobri que leucenas são árvores provenientes da América Central e, quando plantadas em nosso bioma, encontram condições muito mais favoráveis que em seu local de origem. Espalham-se de forma muito rápida e inibem o crescimento de outras espécies nativas. Seu nome científico é Leucaena leucocephala. Foram trazidas para servir de alimento ao gado e logo espalharam-se por todo o território brasileiro. No momento que você passa a conhecê-las é difícil ficar um dia sem vê-las. Nas marginais aqui em São Paulo crescem por todos os lados.

Depois de estudar bastante de forma autodidata, conversar com um, com outro, resolvi que não deveria plantá-las em lugar algum e as arranquei das caixinhas de leite. A sensação foi horrível, afinal foram as primeiras árvores que tinham germinado. A partir daí, percebi que não bastava ter “boas intenções” e querer aumentar o verde paulistano sem saber direito como e o que fazer. Fiz a inscrição para o curso de jardinagem da Umapaz, antigo curso do Viveiro Manequinho Lopes, no Parque do Ibirapuera. Lá tive professores brilhantes, como o professor de história da arte, Marco Braga. Além dele, outros mestres passaram conhecimentos que carrego não só para essa área, mas na minha profissão de jornalista e repórter fotográfico.

berçario de ingazeiros
Berçario de ingazeiros

Logo após o curso de jardinagem fui fazer outros cursos, sempre ligados à botânica – uma paixão descoberta nesses últimos anos que extrapola um simples hobby. Ter uma planta em casa, seja ela uma muda de árvore ou algo menor, como uma pequena horta, ajuda a espantar a solidão e combate a depressão. Existem estudos que já comprovam isso, mas já percebi na prática. Uma das melhores sensações é acordar cedinho e ver um galho novo despontando, uma semente que inicia sua germinação. É mágico acompanhar esse processo. As árvores nos ensinam muito em seu processo de crescimento. Parecem ter uma personalidade bem definida, ajudam umas às outras. Um grande aprendizado tê-las por perto.
A partir dos cursos, percebi que temos uma missão de resgatar pelo menos parte do que já foi o bioma nativo da cidade. A maior parte das árvores plantadas por aqui durante décadas são exóticas, ou seja, vieram de outros locais do mundo, como as tipuanas, provenientes da Argentina, e os Ficus microcarpa, conhecidos popularmente como figueiras, que vieram da Ásia, são alguns exemplos.

Pitangueira em praça no bairro da Aclimação
Pitangueira em praça no bairro da Aclimação

Quando se planta uma árvore exótica não se contribui para aumentar a fauna, os pássaros em geral não usufruem dos frutos de árvores “importadas” e ainda corre-se o risco da espécie ser uma invasora, que toma o espaço de outras, como a Leucaena leucocephala.

Comecei então a coletar sementes de pitangas – no quintal da casa dos meus pais, grumixamas – no Bosque do Parque do Ibirapuera, guapuruvus –  no Parque Projeto Pomar na beira do Rio Pinheiros, copaíba – na cidade de Socorro – e um paulistaníssimo jatobá, colhido no Parque Trianon, na Avenida Paulista, além de muitas outras.
Cada semente coletada tem uma história. Certa vez coletei sementes de ingazeiro numa pauta sobre desmatamento da Amazônia em Mato Grosso. Germiná-las teve um significado especial. Minha família de árvores favorita são as Myrtaceas, e acho que dos passarinhos também. Além dessa ressalto ainda a jabuticabeira, a pitangueira, a cabeludinha, a grumixama, a cereja do Rio Grande, o cambuci, a guabiroba e o araçá. Um verdadeiro tesouro botânico.

Tiago Queiroz ©Paula Moura/Estadão
Tiago Queiroz ©Paula Moura/Estadão

A “Minifloresta” também se aprimorou aqui em casa. Em vez de caixas de leite, agora uso sacos plásticos pretos próprios para as mudas. Também pedi para um marceneiro fazer uma bancada próxima do parapeito da janela da sala, para as “pequenas” poderem tomar mais sol. Algumas espécies, como os guapuruvus, descobri que germinam melhor na areia, para depois serem colocados na terra. Existe um “berçário” para elas aqui em casa.
Quando estão maiores planto, em uma praça onde já cultivo árvores há um bom tempo ou as levo para o interior de São Paulo. Para plantar aprendi muito com os voluntários do Muda Mooca, especialistas no plantio de árvores. E nessa caminhada pelo “verde paulistano” fiz muitos amigos. Gente com as mais diversas profissões, mas com muito amor pela preservação do meio ambiente. Boa a sensação de sentir ter achado “sua turma” nessa São Paulo por vezes tão dura com seus habitantes.

Tiago Queiroz é jornalista e apaixonado por botânica. Trabalha como repórter fotográfico no Jornal O Estado de S. Paulo e gosta sobretudo das pautas onde descobre personagens curiosos da cidade. Está sempre atento às árvores de São Paulo e à possibilidade de coletar sementes.  

 

 

 

 

 

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