Proteção de Quan-inn no Grajaú

Reportagem Maria Lígia Pagenotto e Marcia Minillo
Fotos Marcia Minillo

Jardins do Templo Quan-inn - Foto de Marcia Minillo
Vista dos jardins do Templo Quan-inn

Na extensa zona sul de São Paulo, no ponto distante aproximadamente 30 km da Praça da Sé, está o templo budista Quan-Inn. A construção, imponente, com traços marcantes da cultura e da arquitetura chinesas, está situada no bairro do Grajaú e chama a atenção já de longe, destacando-se na paisagem da periferia da cidade.
A visita ao templo exige silêncio e introspecção por parte dos visitantes. Estivemos lá pela primeira vez, há três anos, num domingo, com um grupo de quatro amigos. Nessa visita, nós éramos os únicos ocidentais do local.
Nos altares, muito ornamentados e coloridos, destoam do conjunto as oferendas feitas com produtos prosaicos, como refrigerantes, frutas, sucos em lata, pães, arroz, biscoitos, iogurtes e bebidas variadas.
Recentemente, fizemos nova incursão ao templo. Agora, já há à disposição dos visitantes uma pequena apostila, traduzida para o português por voluntários, explicando sobre a deusa Quan-inn, os rituais da religião e um pouco sobre o budismo. Nesse dia, havia menos pessoas do que na primeira visita e os chineses continuam sendo a maioria dos visitantes. Eduardo, um voluntário ocidental, brasileiro, budista há 15 anos, contou que a comunidade chinesa é um pouco reticente em relação à presença de curiosos. Isso acontece porque o local é considerado sagrado e, infelizmente, muitos turistas não sabem respeitar a tradição religiosa do templo.

Sala dos deuses espirituais do Templo Quan-inn - Foto de Marcia Minillo
Sala dos deuses espirituais

O templo é mantido apenas com doações

O Quan-inn existe há mais 30 anos e é o “verdadeiro templo taoísta”, segundo Eduardo. Muitos dos que lá frequentam são “dissidentes” do templo Zu Lai, localizado em Cotia, já bem conhecido dos paulistanos. Eduardo contou que há uma certa diferença entre os dois templos. O Zu Lai tem um caráter mais turístico e é muito comum ver ocidentais por lá. Por ter uma visitação maior, recebe mais verbas e doações e está mais bem conservado. Em contrapartida, o Quan-inn faz um grande esforço para se manter de pé apenas como um local de orações. Atualmente, o templo do Grajaú se mantém única e exclusivamente de doações e da venda, numa pequena loja, de pequenos objetos e produtos usados durante as orações pelos fieis. Nela, estão à venda incensos, papéis dourados (veja abaixo), velas, chaveiros, pulseiras, colares, budas e deuses em miniatura, pequenos livros de orações etc.
O local está passando por dificuldades financeiras – as doações estão escassas e há poucos voluntários para cuidar do templo. O visitante encontra mato crescido nos jardins e há falta de manutenção também em algumas partes da construção.

Fachada do templo dos deuses materiais no Templo Quan-inn - Foto de Marcia Minillo
Fachada do templo dos deuses materiais

O conjunto é formado por três templos, dois maiores – um para os deuses espirituais e outro para os deuses materiais – e um pequeno, que fica atrás do templo espiritual, destinado ao culto aos antepassados.
A falta de doações também foi responsável pela suspensão do serviço de acupuntura gratuita à população, que funcionou até o final de 2015. Em troca pelo atendimento, as pessoas levavam doações e ajudavam na limpeza do local.
Na área externa do templo, tudo é muito simples. Não há lanchonete, por exemplo, como em muitos outros locais religiosos em que há grande fluxo de turistas. Mas há um refeitório, que pode ser usado pelos visitantes. No dia de nossa primeira visita, encontramos um grupo grande, com cerca de 50 pessoas, todas orientais, que preparavam um almoço coletivo. Lavavam verduras, cozinhavam arroz e vários outros alimentos. Seguindo o ritual religioso, depois de purificados no altar dos deuses, eles podem ser consumidos normalmente.

Rituais
Conheça aqui um pouco sobre os rituais do budismo praticado no templo Quan-Inn:
Incensos
O ato da queima do incenso simboliza a purificação da mente e do corpo antes de reverenciar Quan-inn e o Buda. Sua fumaça é um meio de conexão entre a terra e o céu. Ao acender um incenso, deve-se sempre agradecer por todas as graças antes de fazer algum pedido. Pode ser utilizado também dentro de casa.

(clique nas fotos para ampliar)
Para cada oração e agradecimento em algum dos três templos, pode-se colocar para queimar um pacote de incenso inteiro ou acender apenas um incenso em cada um dos três templos e levar o restante para queimar em casa.
Papel ouro antepassados
Esse papel  simboliza dinheiro e ouro e é utilizado para pagar promessas, dívidas ou apenas para fazer uma oferenda a um ou a todos os antepassados. A recomendação é para que sejam queimados nos templos. Os praticantes acreditam que as “dívidas” podem travar e atrapalhar a vida das pessoas ou dos familiares e por isso fazem esse ritual.
Papel ouro prosperidade
Também simboliza dinheiro e ouro e é oferecido para fazer pedidos de proteção e prosperidade para si mesmo, alguém da família ou oferecer para outra pessoa. Também deve ser queimado em templos.
Papel ouro fortuna
Menor que os outros papéis, vem com uma folha dourada e outras com cores claras. O papel dourado simboliza o ouro e as demais folhas, o dinheiro. É utilizado para agradecer, pedir tranquilidade financeira, bens materiais e fortuna. Deve ser queimado nos templos.

Fachada do templo do deuses espirituais
Na frente do templo, riqueza de detalhes chama atenção

Divindade em prol da compaixão, democracia e igualdade de gêneros

O nome do templo refere-se à compaixão ou misericórdia de todos os Budas e pode ser grafado de diversas formas no alfabeto ocidental, entre essas Quan-Inn, Kuan Yn, Guan Yin ou Guañyin. Quan-Inn significa aquela que dá ouvidos aos prantos do mundo. A sua representação em estátua advém da China, do ano de 67. Origina-se de uma divindade masculina do budismo do Tibet, que, por sua vez, se divide em várias representações.
Algumas delas misturam-se a divindades femininas, segundo contam os seguidores dessa ramificação do budismo. Nessa forma feminina, chamada de Kuan Yin, a divindade, especialmente nas Filipinas, por influência do catolicismo, que a associa à mãe de Jesus, Maria, está relacionada à maternidade e à proteção. Já na China, ela está ligada à misericórdia e ao perdão. Curiosamente, no Japão, a mesma entidade, com características da misericórdia, é venerada como um ser masculino, chamado de Kannon Bosatsu.

Sala dos deuses espirituais do Templo Quan-inn - Foto de Marcia Minillo
Buda dourado saúda os visitantes

Os adeptos vêem com naturalidade essa capacidade de adaptação da divindade a diferentes culturas. Segundo o site do templo, “no budismo tibetano, recebe o nome de Chenrezig e, assim como Avalokiteśvara na Índia, tem características masculinas predominantes. Como se vê, a energia da entidade se adapta, na Ásia, às condições culturais de cada país. Nas últimas décadas, o culto à Deusa da Compaixão e do Perdão, a Mestra Ascencionada Kuan Yin, se espalhou por todas as Américas, pela Europa e também pela África, quase sempre em sua forma feminina. Como é de se esperar de um ser de tamanha grandiosidade e humildade, a Mestra Kuan Yin se adapta, mais uma vez, aos ventos da liberdade de gênero que sopram sobre os países democráticos, à igualdade de direitos civis entre homens e mulheres, independentemente de suas preferências sexuais.”
veja mais fotos aqui

Serviço: Templo budista Quan-Inn – Rua Rio São Nicolau, 328/672 – Grajaú (distante cerca de 10 km do autódromo de Interlagos)
Como ir: o
templo dispõe de ônibus saindo da região central da cidade, próximo ao metrô Luz, em dias pré-agendados
No site, é possível encontrar um calendário com as datas das saídas dos ônibus
Para confirmações, ligar para: (11) 3228-7910
Aberto à visitação somente aos domingos das 9h às 14h – Gratuito
www.quan-inn.org.br

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