Estímulo à leitura em ações voluntárias

Reportagem Maria Lígia Pagenotto
Fotos Marcia Minillo

Gracielli Morais
Grazielli de Moraes leva livros para os bairros mais afastados

A infância da menina Grazielli de Moraes, hoje com 27 anos, não foi exatamente tranquila. Criada com dificuldade pela avó, cresceu longe dos pais, em uma casa com muitos tios na zona leste da cidade – bairro de São Mateus. A residência, no entanto, tinha um particular que chamava atenção da vizinhança e que fez toda a diferença na vida da menina: sua avó, uma senhora que só estudou até o quarto ano do ensino fundamental, tinha o hábito de levar para casa qualquer livro que lhe caísse nas mãos. Guardava tudo e, aos poucos, o lar em que vivia virou uma espécie de referência no bairro, quase uma biblioteca.
“Muitos estudantes iam até a casa dela para fazer pesquisas e lições para a escola”, conta Grazielli. Ao todo, ela calcula que a avó acolheu, na modesta residência, cerca de mil livros. “Virou um hábito juntar publicações, algumas ela comprava, mas a maioria os vizinhos iam doando”, relembra a neta.
Menina ainda, Grazielli encontrou nos livros a melhor companhia para as horas difíceis. “A leitura tornou-se o meu refúgio”, revela. A avó faleceu, os tios tomaram cada um rumo, mas Grazielli permaneceu fiel ao gosto que tomou pela leitura.
Na hora de escolher que profissão seguir, optou, não por acaso, por biblioteconomia. Formou-se no curso da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e seu amor pelos livros só se intensificou, como era de se esperar. Na faculdade ainda, há cerca de quatro anos, durante a aula de Projetos Culturais, ministrada no terceiro ano, Grazielli teve uma ideia. “Queria possibilitar que as pessoas com menos recursos financeiros e menos acesso à leitura tivessem maior contato com os livros. Assim criei o projeto Adote um livro e transforme-se, que foi tomando forma devagar, com arrecadações de livros apenas junto aos colegas de classe no início”, explica.

(clique nas fotos para ampliar)
A ideia cresceu. Várias pessoas, amigas de Grazielli, resolveram participar da iniciativa, formando um grupo de voluntários – hoje eles são cerca de 10. Os livros recebidos são armazenados por pouco tempo. Periodicamente, em geral uma vez por mês, o Adote um livro organiza uma ação para expor e doar as publicações. Sempre nas ruas ou em pontos movimentados, como nas portas de estações de trem, metrô ou terminais de ônibus.
“Damos preferência a regiões mais afastadas dos centros comerciais de São Paulo”, explica. Nos locais expostos, as pessoas dispostas a doar também podem entregar seus exemplares aos voluntários. A cada iniciativa, são distribuídos cerca de 600 livros gratuitamente. Para que a entrega possa contemplar um número grande de pessoas, cada cidadão tem direito a retirar um livro de cada vez.
“Temos livros de todos os tipos, para todos os gostos”, garante Grazielli. Há desde lançamentos até obras mais antigas. Clássicos da literatura nacional e estrangeira, livros de autodesenvolvimento, infanto-juvenil, infantil, religiosos, ficção e não ficção: há leitores para todos.“
O grupo tem por regra não aceitar doações apenas de livros didáticos, pois esses não têm saída. Eventualmente, para dar mais graça às ações, participam delas, sempre como voluntários, autores de livros, que autografam exemplares ou fazem alguma atividade lúdica, especialmente com crianças, com quem vai retirar um livro. Como diferencial, todas as obras disponíveis têm a etiqueta “Adote um livro e transforme-se”.

Dia de autógrafo em atividade em parque
Dia de autógrafo em atividade em parque

Segundo as regras do projeto, com o livro em mãos e acesso ao endereço na internet registre sua leitura, o leitor pode digitar o código indicado na etiqueta e, a partir dele,
escrever no site o motivo pelo qual escolheu a obra. É possível ainda opinar sobre a publicação. “Isso estimula a leitura e faz com que os livros, depois de lidos, sejam
passados para a frente e procurados numa outra ação. Queremos, com nosso projeto, valorizar o poder da leitura como algo transformador da sociedade, tendo em vista
que leva informação e formação para o indivíduo, além de influenciar no seu modo de agir, falar e pensar”, afirma Grazielli.
Hoje, o projeto já conta com 24 ações realizadas em pontos fixos, atingindo regiões em todas as zonas da cidade (norte, sul, leste e oeste). Em geral, os voluntários atuam com autorização das subprefeituras para fazer as doações. No ano passado, o “Adote um livro” esteve na agenda da Virada Cultural da cidade.
Vale lembrar que o projeto não tem patrocinadores e conta somente com doações de livros e ação voluntária. O grupo se dispõe a retirar doações.

Tudo é uma questão de pegar o livro “certo”

A paixão de Grazielli pela leitura a levou também a trilhar outros caminhos, além do projeto. Há seis anos ela está à frente do blog Faces de uma capa, com página no Facebook. Nesse espaço, além de publicar resenhas de livros, ela expõe seus pensamentos e faz críticas literárias. Mas o local também é “um ponto de encontro dos que são fascinados pelo mundo dos livros e da literatura, especialmente literatura nacional”, segundo ela.
Seu objetivo maior, com essas iniciativas, conta, é fazer com que todas as pessoas descubram o prazer de ler. “Não aceito que exista alguém que não goste de ler. Acho que essas pessoas não pegaram o livro certo ainda, não se acharam”, costuma dizer.
E sua missão, acredita, é fazer com que tudo mundo encontre pelo menos um livro para chamar de seu.

 

 

 

 

 

 

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