Memória preservada

Reportagem Marina Izidoro
Fotos Marcia Minillo

Memorial da Imigração Judaica - Foto de Marcia Minillo
O prédio onde está o Memorial foi sede da primeira Sinagoga de São Paulo, fundada em 1912

Quem entra no prédio de fachada azul na esquina das ruas da Graça e Lubavitch, no Bom Retiro, por alguns momentos se esquece de que está em São Paulo, naquele bairro coalhado de gente nas ruas, entre lojistas ou consumidores comuns, atrás de boas ofertas de roupas e acessórios.
O antigo prédio, que começou a ser construído em 1954, e abrigou até 2011 a sinagoga Kehilat Israel, fundada em 1912, foi transformado no Memorial da Imigração Judaica em homenagem aos judeus que vieram para o Brasil no início do século passado e durante muito tempo fizeram do bairro o principal reduto da comunidade judaica no país, hoje concentrada no bairro de Higienópolis. “A construção desse memorial foi um presente da comunidade judaica para São Paulo, cidade que a acolheu tão bem”, diz Márcio Pitliuk, um dos curadores.

Memorial da Imigração Judaica - Foto de Marcia Minillo
Interior da sinagoga totalmente preservada

Com um conceito moderno e interativo, o memorial, inaugurado em fevereiro deste ano, conserva algumas preciosidades, como a arca de madeira feita por um artesão do bairro e que tem mais de 80 anos. No acervo, há também o diário de viagem de Henrique Sam Mindlin, antepassado do empresário José Mindlin, que faleceu em 2010 e deixou o acervo que hoje constitui a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. O diário foi escrito em 1919, quando ele tinha apenas 11 anos, durante a viagem de navio que o trouxe de Odessa, na Ucrânia, até o Rio de Janeiro. Outro destaque é o livro “Diálogos de Amor”, de 1580, escrito por Leon Yuda Abravanel, de Veneza, da família do apresentador Silvio Santos.
Logo na entrada, subindo as escadas, à esquerda, há um painel que mostra as ondas migratórias dos judeus pelo mundo e abaixo dele um nicho com pedras tiradas do Gueto de Segóvia, na Espanha; do muro do Gueto de Varsóvia, na Polônia; e do Muro de Berlim, na Alemanha, elementos que lembram a perseguição aos judeus durante a Inquisição na Península Ibérica, na dominação nazista e no bloco comunista. À direita, estão a Sala de Imersão, o interior da Sinagoga, com bancos, lustres e a arca onde é guardada a Torá, o livro religioso dos judeus, totalmente preservados. Há, ainda, documentos e fotos relativos ao imóvel.

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O maior objetivo é sensibilizar os mais jovens

Ao subir as escadas, o visitante poderá ver uma projeção com frases de saudação e outras usadas no dia a dia nas principais línguas faladas pelos judeus, o hebraico, o iídiche e o ladino. No segundo andar, o destaque fica por conta de uma mesa de refeições acoplada a um painel em que o visitante pode selecionar o festividade, segundo a tradição sefaradi (dos judeus da Península Ibérica) ou ashkenazi (judeus da Europa Central e Oriental), e os pratos servidos nela são projetados sobre a mesa. Nesse andar, há também objetos usados em cerimônias, como casamento — há uma taça virtual para ser quebrada, como manda a tradição —, Ano Novo e Pessach, a Páscoa do judeus, além de documentos históricos que representam o ciclo de vida de um judeu. Há ainda uma galeria de fotos doadas pelas famílias dos imigrantes. Por esse andar, também se tem acesso à parte superior da Sinagoga, onde há os bancos reservados para as mulheres.

Memorial da Imigração Judaica - Foto de Marcia Minillo
Altar para casamento com quebra de taça virtual

O terceiro e último andar, ainda em processo de montagem, com inauguração prevista para 2018, contará como foi a diáspora judaica no contexto mundial, falando dos 12 países de origem dos imigrantes, as conquistas e as razões que os levaram a imigrar. “A partir de 1933, houve grande imigração para o Brasil, por causa da perseguição nazista”, diz Pitliuk. “Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os sobreviventes também saíram em busca de outros países para viver e muitos vieram para cá.” Nesse andar, que também será interativo, haverá filmes, fotos e depoimentos de sobreviventes. “O objetivo é atingir principalmente o jovem”, explica Pitliuk, que é especialista em Holocausto. Publicitário, escritor e cineasta, ele lançou vários livros e documentários sobre o tema, entre eles o filme “Sobrevivi ao Holocausto”, que mostra a visita do polonês Julio Gartner, aos quatro países europeus nos quais viveu, antes durante e depois do genocídio que vitimou seis milhões de judeus. Com o final da guerra, ele escolheu o Brasil para viver.

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No subsolo, com paredes de tijolo aparente, há grandes painéis fotográficos retratando a chegada dos imigrantes ao Brasil e sua relação com o bairro, onde construíram escolas, clubes, teatro, jornais e se estabeleceram primeiramente no comércio e depois na indústria. Chama a atenção um painel com a imagem e a história de judeus ilustres no Brasil, como Clarice Lispector. Numa grande mesa há também um mapa interativo onde estão demarcadas as sinagogas do bairro e outros estabelecimentos relacionados à comunidade judaica. Nessa andar, ainda há uma loja e livraria, com objetos e livros religiosos e outros livros relacionados à história dos judeus, além de uma lanchonete.
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Serviço: Rua da Graça, 160 – Bom Retiro – Tels.: (11) 3331-4507
Aberto de segunda a quinta-feira, das 10h às 17h, e sexta até 15h – Visitas de grupos e escolas podem ser agendadas por telefone

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