A afirmação da cidadania na luta por um novo parque em São Paulo

Reportagem Maria Lígia Pagenotto
Fotos Marcia Minillo

Campos demarcados e área de lazer para todos
Campos de futebol demarcados e áreas de lazer espalhadas por todo o parque

Imagine um parque que nasce após 30 anos de luta dos moradores de seu entorno. Não fosse isso, aquele imenso terreno com árvores, abandonado por tanto tempo, podia ter se transformado num shopping center ou num condomínio de casas ou edifícios.
Graças à persistência e batalha de um grupo de paulistanos, a antiga Chácara do Jockey, localizada na Vila Sônia, zona oeste de São Paulo, subprefeitura do Butantã, é agora uma bela e imensa área verde aberta para a população.

Futebol para todas as idades
Esportes para todas as idades

O espaço foi inaugurado dia 30 de abril de 2016, após ser desapropriado pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, por uma dívida de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) avaliada, até 2014, em cerca de 130 milhões de reais. Também havia uma dívida com a Receita Federal, estimada em mais de 70 milhões de reais.
Com 151 mil metros quadrados, o parque nasce com um diferencial importante: além de uma conquista da população, a elaboração do projeto contou com a participação dos moradores do bairro.
Foi concebido com base em propostas inclusivas, de forma a garantir o seu uso democrático, sob uma gestão e administração compartilhadas.
Durante 30 anos, o lugar, originariamente destinado ao treinamento de jóqueis e cavalos de corrida para o Jockey Club de São Paulo, ficou fechado. Os moradores do bairro, com apoio de um grupo importante de paroquianos ligados à Igreja Nossa Senhora de Fátima, começaram a reivindicar a preservação da área então abandonada.

A estrutura de madeira servirá de suporte para um caramanchão
Mais de 150 mil metros quadrados de área

A batalha foi árdua. Contra a população, estava o poderio econômico, representado por donos de corporações imobiliárias, ávidos por construírem naquele imenso terreno.
Para vencer a guerra, a comunidade resolveu juntar forças com outros coletivos. Formaram então – há 16 anos – o Movimento Parque Chácara do Jockey, à frente da luta para a consolidação da área como parque municipal.
No processo de desapropriação, a prefeitura ofereceu 63,9 milhões de reais para o Jockey. O valor da indenização será compensado pela dívida de IPTU que o Jockey tem com a administração municipal. Com isso, não haverá investimento direto na desapropriação da chácara.
A mata local foi preservada, não havendo quase custos para a recuperação da área verde. Os muros foram derrubados, dando lugar a grades. Foi mantida apenas uma parte do muro na Av. Monsenhor Manfredo Leite, entregue a um grupo de grafiteiros convidados pela prefeitura, para que fizessem ali desenhos e pinturas.

(clique nas fotos para ampliar)
O parque, diz Francisco Bodião, integrante do movimento de desapropriação, tem uma gestão participativa e popular. A luta pelo espaço, afirmam os líderes, não terminou com a sua inauguração. Agora é que a comunidade, acreditam, mais do que nunca precisa estar engajada, atenta e comprometida com o cuidado e melhoria da qualidade do espaço público.
Quem está à frente do movimento afirma, ainda, que precisa cobrar a eficiência dos serviços de manutenção interna, bem como controlar a qualidade das obras entregues. As propostas apresentadas e as novas ideias não podem perder de vista a garantia de um parque inclusivo, para todas as idades e necessidades, sendo o mais diverso possível, não deixando em segundo plano o compromisso com a mediação de interesses e conflitos que possam surgir, ampliando, assim, a capacidade de escuta e diálogo, cuidando e melhorando a convivência e compartilhamento desse espaço público.

Pistas de skate, entre as melhores do Brasil
Pistas de skate, entre as melhores do Brasil

Vale ressaltar que o parque nasceu por pressão de abaixo-assinados que reuniram mais de 10 mil assinaturas. Foram organizados ainda, ao longo dos anos, debates e discussões no bairro envolvendo toda a comunidade próxima, assim como campanhas de divulgação e panfletagem. O grupo fez ainda diversas visitas de cobrança e diálogo na Câmara dos Vereadores, buscando apoio de parlamentares; realizou reuniões de trabalho e quatro audiências públicas. A última delas, em agosto de 2014, contou com a presença do prefeito Haddad. Foi nessa ocasião que ele comunicou a decisão da prefeitura de implantar o parque.

Atrações
O Chácara do Jockey reúne um centro cultural, pistas de skate, quadra poliesportiva, creche e pré-escola, campos de futebol, espaços de convivência, áreas para piquenique, playground e outros espaços. Segundo o prefeito Haddad, ao longo do tempo novos equipamentos serão entregues. “Temos ainda uma reforma para a reocupação global, porque nós queremos preservar a memória do local”, afirmou ele no dia da inauguração.

Antigas cocheiras darão lugar a
Antigas cocheiras darão lugar a oficinas 

Na primeira etapa, foram entregues equipamentos de ginástica para idosos, uma base da Guarda Civil Metropolitana (GCM), Laboratório de Fabricação Digital (FabLab), quadra, vestiários, horta comunitária, playground, espaços de convivência com churrasqueiras e salão de festas, além da pista de caminhada e dos campos de futebol. Os praticantes de skate terão à disposição duas pistas oficiais, em construção de acordo com os parâmetros da federação paulista da modalidade.
Parte da programação cultural oferecida nas antigas cocheiras será escolhida pela população, num processo participativo. Essas baias, que ocupam 8.800 metros quadrados do parque, abrigará um novo polo de cultura e criação aberto para iniciativas de produção, formação e fruição do saber artístico em suas múltiplas linguagens e representações. Setores de promoção cultural e coletivos poderão apresentar propostas de ocupação da área por meio de editais públicos.

Laboratório de Fabricação digital - FabLab
Laboratório de Fabricação Digital (FabLab)

Entre o que já está determinado, haverá oficinas, estúdio de gravação, salas de produção e sala multiuso para dança, música, reuniões e apresentações cênicas, além de um Laboratório de Experimentação e Inovação Audiovisual (LEIA).
O parque conta ainda com uma unidade do Fab Lab Livre SP, uma rede pública de fabricação digital gerida pela Secretaria de Serviços. O laboratório atua como centro de pesquisa e produção tecnológica. Ao lado do Fab Lab, está prevista a instalação de uma biblioteca.
Para os moradores e integrantes do movimento de defesa do local, a tarefa agora é garantir que essa conquista da cidadania só melhore, “ampliando conversas, entendimentos, propondo projetos e ideias, defendendo o conceito de parque público, popular e participativo”, de acordo com o manifesto do grupo. São Paulo só tem a festejar com mais essa área verde.
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Serviço: Portões de Acesso: Av. Prof. Francisco Morato, altura do nº 5257 – Av. Pirajussara, altura do nº 4748 – Rua Santa Crescência, 323
Como Chegar: Ciclovia Pirajussara (Av. Pirajussara / Av. Eliseu de Almeida) – paraciclos disponíveis nos Portões da Av. Prof. Francisco Morato, altura do nº 5257, e da Av. Pirajussara, altura do nº 4748a
Aberto todos os dias, das 6h às 18h – Gratuito

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