Comida que veio dos Andes

Reportagem Maria Lígia Pagenotto e Marcia Minillo
Fotos Marcia Minillo

Preparo do caldo de cardan (pinto de boi). Nanci Castellon dona do restaurante El Campeon. Bolivianos na Rua Coimbra
Caldo de cardan (pênis de boi) do restaurante El Campeon

A rua Coimbra, no Brás, abriga uma profusão de aromas e sabores andinos. Nos dias em que a feira boliviana acontece – todos os finais de semana, aos sábados e domingos (veja a matéria Uma Bolívia dentro do Brás) a região se enche de cheiros inusitados para a maioria dos brasileiros. A cozinha boliviana não é sofisticada, vale lembrar. Composta por ingredientes e combinações por vezes estranhos ao nosso repertório gastronômico, atrai especialmente quem gosta de mergulhar na diversidade cultural da nossa São Paulo.

Delfina na barraca que vende Broaster, franco empanado frito. Bolivianos na Rua Coimbra
Pollo broaster

Os quitutes da rua

Nos dias de feira, há muitas barracas vendendo comida na rua, disputando o paladar dos visitantes. Quem não teme uma fritura pode pedir o pollo broaster. Trata-se de meio frango temperado, regado em molho de pimenta, sal, orégano, envolto em farinhas de milho, trigo, e imerso em óleo muito quente. Acompanha batatas fritas. As saltenãs (salgado assado), que levam carne de boi e de frango, com muito caldo, também estão por toda parte, assim como as ofertas de chincharrón (carne frita suína com milho branco e batata). Os bolivianos apreciam muito também um prato chamado salchipapas (salsichas com batatas fritas). Outra iguaria que agrada é o api, mingau feito de milho, que deve ser tomado bem quente.

Jaqueline Glenda e o marido Eric Lima na barraca vendendo Buñuelo, massa frita. Bolivianos na Rua Coimbra
Jaqueline e Eric preparando o buñuelo

Só na barraca comandada por Jaqueline Glenda, de 34 anos, há 16 anos no Brasil, é possível encontrar o buñuelo, uma massa feita com farinha de trigo, leite, ovos, sal, açúcar e fermento. Bastante pegajosa, ela é aberta em forma de disco e, de preferência, frita na hora de servir, geralmente acompanhada de mel. Os bolivianos gostam tanto do quitute vendido, que, aos sábados, duas auxiliares passam o tempo todo só abrindo a massa – cerca de 15 quilos por dia. O gosto lembra bolinho de chuva – a massa é leve e fica bem sequinha depois de frita.
Há ainda muitas barracas de pães típicos, tanto doces como salgados, a preços bem convidativos. Para beber, o carro-chefe é o suco de pêssego descascado e desidratado, chamado de mocochinchi. Também faz sucesso o suco de maní (amendoim). A bebida é feita a partir do amendoim torrado, batido no liquidificador com água e depois cozido em fogo lento por cerca de duas horas. É servido sem coar.

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Nos restaurantes

Dentro dos estabelecimentos – e há uma série deles na rua Coimbra –, são servidas outras especialidades. Vale conhecer o Bolívia, no número 160, comandado por Jaime Ortiz. O local oferece pratos como a sopa de maní (amendoim) e o tradicional chicharron, composto por carne de porco, milho branco (mote), batata preta desidratada (chuño) e batata branca. Bem servidos, eles costumam ser compartilhados por duas pessoas ou mais, o que torna o valor bem atraente. Um prato de chicharron, por exemplo, custava, no primeiro semestre, 18 reais.
Outro restaurante que vale a pena conhecer é o El Campeon, que está sob a batuta do casal Nanci Castellon e Cristobal Moreno. Há mais de 40 anos no Brasil, Nanci se orgulha de sua culinária. Faz questão de nos mostrar a cozinha do restaurante e o preparo de dois pratos, o caldo de cardan (pênis do boi) e o charquekan (feito com carne seca frita e desfiada).
O caldo é uma iguaria extremamente proteica. Num prato fundo, Nanci acomoda uma porção de arroz cozido, pedaços de carne de boi, frango, rabo e mocotó, batata preta e branca e ovo cozido – tudo regado com um pouco de leite. O caldo então é jogado por cima. O toque final fica por conta de muito orégano e cebolinha verde picada.

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Já o charquekan leva carne seca frita e desfiada, milho branco cozido, ovos, batata branca e uma generosa porção de queijo. Os pratos do El Campeon são ainda mais baratos do que os do Bolivia, e servem muito bem duas pessoas.
Nanci explica que os bolivianos quase não comem doce, por isso no cardápio não há sobremesas. Outro costume da culinária desse povo é iniciar as refeições sempre com um caldo. No El Campeon, o mais pedido é o caldo de pata (mocotó) e o caldo de pollo (frango). Um dos pratos que saem bastante é a sajta de pollo, frango cozido com muita cebola, alho, sal, pimenta, molho e outros temperos, muito consumido em La Paz, capital da Bolívia. Como acompanhamento, batatas cozidas.
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Serviço: Restaurante Bolívia- Rua Coimbra, 160 – Brás – Tel.: (11) 2081 5981 e (11) 2291 0490
Aberto todos os dias das 7h às 20h
Restaurante El Campeon – Rua Coimbra, 82 – Brás – Tel.: (11) 949331276
Aberto todos os dias das 8h30 às 21h

 

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